quinta-feira, 20 de junho de 2019

O construtor de crateras

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Guido Lang

As histórias de tesouros enterrados deixaram muita gente com “a cabeça virada” fazendo com que passassem noites sem dormir em função dos pensamentos direcionados ao enriquecimento fácil.
Este fato aconteceu num remoto interior onde um transtornado mental cavoucou imensas crateras. Os buracos, depois de décadas de existência, são a efetiva comprovação do sucedido. Enormes pedras, retiradas com um esforço sobre-humano, espalham-se pelas lavouras e são outra comprovação da labuta inútil, que absorveu dias, semanas, meses de trabalho de um pacato morador.
Um colonial “encheu a cabeça” de um humilde senhor, que vivia falando sobre tesouros e sonhando com eles. Este era obcecado pelo assunto e suas conversas prediletas relacionavam-se aos achados. Inúmeros relatos eram mais fantasias e ilusões, porque achados fáceis sucedem-se unicamente com muita casualidade e sorte. Pouquíssimas pessoas, num contexto de milhões, parecem ter o privilégio de desfrutar de descobertas de artefatos ou metais com valores monetários significativos, pois quase ninguém costuma enterrar riquezas.
O modesto cidadão rural, depois de falar muito sobre o tema dos objetos preciosos, ouviu uma versão da existência de metais preciosos na sua pacata localidade. Este, de imediato, iniciou as escavações sem delimitar a área e abria crateras sem maiores critérios. Um buraco ali, outra cratera lá, iam tomando forma. O indivíduo procedeu dessa forma por um bom tempo, pois tinha certeza absoluta do sucesso. O cansaço e as necessidades de sobrevivência diária venceram-no, mas não foi fácil fazê-lo desistir da ideia da procura inútil. Os moradores coloniais deram-no como louco, mas poucos batalhavam tenazmente para concretizar suas aspirações e sonhos absurdos.
Cada louco alimenta as suas fantasias e manias.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 87, de Guido Lang).

Crédito da imagem: http://g1.globo.com

domingo, 16 de junho de 2019

A figueira centenária

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Guido Lang

As colônias alemãs, sobretudo do Vale do Taquari, foram abaladas pela Revolução Federalista (1893-1895). Os maragatos e pica-paus continuamente incursionavam pelas picadas, e ambos adonavam-se de víveres e roubavam casas comerciais.
Os colonos, em diversas oportunidades, viram suas criações e plantações pilhadas. As tropas, sem mantimentos, abasteciam-se nas pacatas propriedades rurais, que cediam aves, bovinos e suínos, assim como montarias. Os moradores, com vistas a não sofrer maiores represálias, cediam os bens. Os dividendos monetários acumulados com muita economia e trabalho também necessitaram de esconderijos seguros, pois atiçavam a cobiça humana.
Um morador colonial, perseguido pelos maragatos (por ser simpatizante dos castilhistas), precisou esconder-se no interior dos matos da sua propriedade, pois recebia, constantemente, visitas de inimigos. Estes, a todo momento, procuravam-no com o intuito de degolá-lo, era tido como informante de republicanos. Necessitou também esconder seu numerário financeiro, que consistia de alguns quilos de moedas de ouro e prata (do período imperial). Ele, como refugiado, resolveu armazená-lo no interior de um orifício oco do tronco da tradicional figueira centenária. O colono, com convicção, confiou na segurança daquela guarda, pois o período revolucionário certamente seria breve.
A instabilidade política e a perseguição estenderam-se por meses. O cidadão, num belo dia, veio a adoecer e a morte súbita ceifou-lhe a existência. O dinheiro, durante décadas, ficou guardado no interior da exuberante figueira, que mantinha-se como símbolo de perenidade. As gerações de familiares, vinham e iam, e nada de desfazer o mistério das moedas. Ele, inclusive, tinha dado origem a histórias familiares, que eram narradas de pais para filhos. Os forasteiros e moradores, em diversas ocasiões, chegavam a abrigar-se nas sombras da formosa árvore que não parecia ostentar maiores segredos.
Um agricultor, com vistas a fazer espaçosa roça, resolveu derrubar a árvore, que, com advento da mecanização agrícola, representava um estorvo. A motosserra, em poucos minutos, foi ceifando e retalhando a planta, quando, numa certa altura, escutou-se um estranho ruído. O barulho denunciou a presença de metais, e vieram à tona as extraviadas moedas. Uma alegria tomou conta do pacato trabalhador rural que, casualmente, deparou-se com a fortuna.
A vida, em escassas oportunidades, defronta-nos com dádivas e surpresas.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 16, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://pixabay.com/pt/photos/bitcoin-moedas-ouro-dinheiro-moeda-282798/

A fuga do combatente maragato

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Guido Lang

A Colônia Teutônia (atual Teutônia/RS), em 15 de maio de 1894, conheceu seu maior combate, quando tropas federalistas (conhecidas como maragatos) e republicanas (conhecidas como pica-paus), degladiaram-se na Revolução Federalista (1893-1895).
Centenas de homens enfrentaram-se sobre a ponte do Arroio Boa Vista (entre Glück-Auf e Neuhaus – atual Languiru e Teutônia Várzea), onde os revolucionários federalistas entrincheiravam-se na residência de Júlio May (quartel-general) e moradias circunvizinhas.
Os maragatos, conhecendo o tamanho da tropa governamental, passaram a fugir, sem disparar o primeiro tiro, em direção aos matos. Os tiros dos pica-paus assumiram a semelhança duma chuva em direção aos fugitivos, que foram abonando arreios, bagagens, cavalos e munições aos inimigos. Quatorze combatentes, em meio ao combate de Teutônia, tombaram mortos. Dois eram governamentais e doze, maragatos.
Os federalistas, curando as feridas e desorganizados nos matos, passaram a ser caçados como animais, com razão de abandonarem o quartel-general teutoniense.
Estes, depois de meses de acampamento e inúmeros atos de pilhagem, assim como do incêndio de diversas casas comerciais, precisaram procurar novas bases.
Diversos combatentes, depois de dias de esconderijo, necessitaram “colocar o pé na estrada” com a finalidade de reaglutinar-se e reencontrar-se com seus simpatizantes.
A tradição oral conta-nos a história dum federalista que bateu esfomeado numa residência colonial.
Soldados republicanos ainda estavam no seu encalço, pois almejavam abatê-lo ou eventualmente prendê-lo.
Este, em meio ao maior pavor e estado deplorável, chegando na moradia, solicitou água e pão. A família atendeu prontamente ao pedido do inimigo, quando o revolucionário retomou fuga. Os perseguidores, minutos depois, chegaram e pediram informações. Relatou-se sobre sua passagem, mas ignorou-se sua direção e o solicitado por ele.
O maragato era um ser humano, por isso não merecia ser caçado como animal.
O colonial não nega um pedido de água e alguma comida a forasteiros, que, costumeiramente, são recebidos amistosamente.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 87, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://www.extraclasse.org.br/cultura/2013/04/chimangos-x-maragatos/

terça-feira, 11 de junho de 2019

O pelego do degolador maragato

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Guido Lang

Uma propriedade colonial, em 1893, conheceu uma invasão repentina dos maragatos. Os federalistas, de “sopetão”, entraram nas instalações rurais, e proprietários e familiares nem tiveram tempo de fugir para os matos próximos.
O colono, para safar-se de maiores represálias, atendeu bem aos forasteiros indesejáveis, pois tinha ouvido falar dos recentes horrores da guerra fraticida entre o povo rio-grandense, pois irmãos gaúchos degolavam-se por divergências políticas.
O morador, vivendo bastante isolado, conhecia pouco das diferenças ideológicas entre federalistas e republicanos, que ensanguentavam barbaramente o solo do Rio Grande do Sul. O cidadão, na prática, almejava viver em paz e labutar na terra para dela extrair o sustento. Os seus pais, há décadas atrás, tinham abandonado a Europa com a finalidade de safar-se das intermináveis guerras europeias.
O chefe maragato, Altenhofen, falou da necessidade de cavalos e mantimentos diante da precisão da guerra, porque a tropa de combatentes via-se carente de provisões e recursos. O colonial, com o objetivo de poupar aborrecimentos e a vida, cedeu gado, equinos e suínos, que acabaram abatidos no lugar, e os animais de montaria que foram levados. Um revolucionário viu ainda estendido um excepcional pelego, que muito lhe agradou. O colono, diante do temor das armas, deu-o como cortesia, pois não queria maiores implicações com os rebeldes.
Alguns meses depois um filho do morador dirigiu-se da Schmidt para a Picada Catarina. Este, com sua montaria, viu-se parado, próximo ao Passo da Capivara, por uma turminha de maragatos. Os revolucionários, por alguma razão, quiseram degolá-lo.
O carrasco, com a determinação recebida do superior, encontrava-se pronto para concretizar o ato. A vítima, em meio ao maior desespero e na última tentativa de safar-se com vida, falou: “Estás vendo este pelego no seu cavalo? Meu pai deu-lhe como presente e agora, como gratidão, almeja matar seu rebento?” O algoz sensibilizou-se diante da afirmativa e respondeu: “Toma o teu potro e some daqui. Não saía de casa durante a Revolução Federalista”. O modesto pelego salvou-lhe a vida e o cidadão refugiou-se no interior duma propriedade.
Pequenas cortesias aproximam as pessoas e resultam, costumeiramente, em troca de favores.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 68, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://educalingo.com/pt/dic-es/maragato

quarta-feira, 5 de junho de 2019

O cavalo corredor

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Guido Lang

         O lazer colonial, até os anos de 1960, era bastante escasso no contexto das colônias, onde carecia-se das facilidades de comunicação e locomoção para os diversos eventos comunitários.
Os colonos, de maneira geral, divertiam-se nos bailes anuais das entidades, nas carreiras de cavalos, nos festejos familiares, kerb, partidas de futebol..
Um esporte bastante apreciado eram as tradicionais carreiras de animais, que se sucediam nos potreiros das colônias..
A multidão, nos eventos previamente divulgados, afluía maciçamente às competições, nas quais faziam-se vultuosas apostas nos animais. Um barulho (carteado), sobre um pelego estendido no chão, ganhava importância, nos intervalos da diversão, pois nem sempre havia cadeiras e mesas para as partidas improvisadas.
Os moradores submetiam-se à realidade de carências, porque desconheciam maiores confortos e vantagens naquele pacato e rústico modelo de vida.
Um apostador e o dono de um cavalo corredor fizeram um negócio para alimentar e investir no aprimoramento do excepcional bicho. O dono entraria com a mão de obra, com a finalidade de tratar o animal e com os rotineiros treinos de corrida. O fanático apostador entraria com o trato (alimento) no qual não poderia faltar a abundância de milho.
O colaborador caprichou no investimento, pois sentia paixão pela corrida de cavalos, e apostava suas economias no corredor de sua preferência.
O dono, numa falcatrua, desviava o cereal para o trato suíno, enquanto o colaborador nem desconfiava do roubo. O cavalo, numa aparente combinação, ganhava somente as corridas de menor número de apostas e perdia aquelas de maiores quantias.
O colaborador perdeu muito dinheiro com a história e praticamente faliu no seu negócio particular até descobrir a veracidade do engano e roubo.
A malandragem sempre existiu nas mais diversas e modestas organizações sociais, pois enganar e roubar parece fazer parte do gênero humano.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 84, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://www.clasf.com.br

sábado, 1 de junho de 2019

Os males do olho gordo

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Guido Lang

As localidades esporadicamente são sacudidas por novidades produtivas. Algum produtor introduz uma novidade técnica, que é copiada por demais agricultores na proporção do sucesso produtivo.
Órgãos governamentais, como exemplo a Emater e Secretaria Municipal da Agricultura, tratam de incentivar as inovações, o que ocorre através de uma assistência e orientação técnica.
As cooperativas e empresas, na proporção de seus interesses econômicos, auxiliam nas instruções, pois almejam encontrar uma maior produtividade para a propriedade minifundiária de subsistência.
Esta, em síntese, precisa tornar-se viável diante da massiva concorrência e produtividade das grandes lavouras comerciais, que se ajustam melhor ao jogo do sistema (com o emprego de abundante mecanização, fertilizantes, produtos químicos, sementes selecionadas...).
Um agricultor resolveu investir seus esparsos recursos financeiros na produção de hortigranjeiros. O sistema de estufas foi uma excepcional novidade, que despertou a atenção de diversas comunidades circunvizinhas.
Os comentários e expectativas foram imensas devido aos gastos e resultados produtivos. Amigos, conhecidos e vizinhos foram inteirar-se das construções e a metodologia do plantio das primeiras mudas.
Os primeiros resultados, o crescimento rápido das plantas, advieram, para alegria e satisfação do colono, depois de algumas semanas. Outros produtores pensaram na introdução das inovações, enquanto uns poucos despertaram para a inveja alheia.
O controle social, comum nas sociedades civilizadas, tomou forma, quando diversos semelhantes não conseguem ver com bons olhos o sucesso dos próximos. Um temporal, em forma de granizo e ventania, veio a danificar os plásticos e derrubar as construções.
O colono, diante da decepção e raiva, desabafou: “- O ‘olho grande’ (o olhar excessivo de alguns) trouxe maus presságios...”
O indivíduo não deve fazer alarde com as novidades, pois elas nem sempre dão certo. Os elogios e vantagens, contadas antes do tempo, não trazem boa sorte; convém fazer as coisas na maior discrição e prudência.

            (Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 45, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://pt.wikipedia.org/wiki/Inveja

domingo, 26 de maio de 2019

O baú de moedas

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Guido Lang

         Wilhelm, como a maioria dos colonos, era um pacato cidadão, que dedicou a vida à família e à atividade rural. Ele, como quase todos os filhos de imigrantes alemães, não teve maiores chances de escolher uma profissão liberal e de serviços, pois careceu de maiores oportunidades para prosseguir nos estudos.
         As dificuldades monetárias mostravam-se constantes na infância: os pais ostentavam posses, mas careciam de divisas financeiras. Os genitores vieram à América com uma “mão na frente e outra atrás”, praticamente não trouxeram bens. O clima, o solo e o sistema de culturas necessitavam ser assimilados e o trabalho estendia-se de segundas a sábados. As folgas, no máximo, ocorriam aos domingos e feriados excepcionais. O cidadão, naquele mundo, assimilava, desde tenra idade, a filosofia de poupador e trabalhador, pois a prosperidade e o sucesso econômico poderiam decorrer unicamente do suor da labuta e de muita economia.
        O colono, na vida adulta, veio a constituir família e continuou as atividades assimiladas dos ancestrais. A prosperidade herdada dos pais e uma bela moradia foi edificada com os dividendos auferidos das criações e plantações. Os filhos cedo vieram e reforçaram, na medida do crescimento, a força braçal familiar. Estes, num primeiro momento, pareciam refazer a trajetória paterna que era de nascer, crescer, casar, multiplicar-se e morrer, naquela realidade existencial.
     Wilhelm, com a passagem dos anos, procurou fazer uma economia particular, com vistas a proteger-se dos infortúnios da velhice. Ele, conhecendo o lastro ouro e prata da moeda nacional (no período monárquico e primórdios da República), procurou avolumar um punhado destes metais. As divisas metálicas, durante algumas décadas, foram cuidadosamente juntadas e guardadas no baú familiar. O numerário veio a somar diversos quilos, que seriam a garantia diante dos azares da existência.
    O morador, num dia destes, veio a falecer repentinamente. Os herdeiros vieram conhecer seu espólio e depararam-se com suas economias. Uma filha e genro, logo se adonaram das reservas, quando iniciaram brigas, falatórios e intrigas, em função do patrimônio.
     O cidadão, geralmente, não precisa daquilo que amontoa e guarda com tanto zelo durante anos.

(Texto extraído de “Contos do Cotidiano Colonial”, página 19, de Guido Lang).

Crédito da imagem: https://produto.mercadolivre.com.br/MLB-1083916831-400-moedas-ouro-tesouro-pirata-festa-decoraco-bau-navio-_JM?quantity=1